Fundada por trabalhadores portugueses, a Briosa construiu uma trajetória centenária marcada por tradição, resistência e grandes campanhas
Foto: Douglas Teixeira/BriosaEm uma cidade profundamente ligada ao futebol, construir uma identidade própria nunca foi tarefa simples. Santos revelou craques para o mundo, recebeu grandes clubes e transformou o esporte em parte de sua cultura. Ainda assim, entre tantas histórias que nasceram no litoral paulista, a Portuguesa Santista encontrou espaço para escrever a sua com personalidade, tradição e uma ligação inseparável com as raízes portuguesas.
Conhecida como Briosa, a Associação Atlética Portuguesa atravessou mais de um século enfrentando mudanças no futebol brasileiro, crises financeiras, acessos, rebaixamentos e períodos de reconstrução. Também viveu campanhas históricas, colocou jogadores na Seleção Brasileira, realizou excursões internacionais e fez do Estádio Ulrico Mursa um dos endereços mais tradicionais do esporte paulista.
Das pedreiras de Santos nasceu uma ideia
A origem da Portuguesa Santista remonta a uma cena aparentemente comum no início do século XX. Em 1914, trabalhadores portugueses que atuavam como canteiros em uma pedreira no bairro do Jabaquara acompanharam uma partida do Hespanha Futebol Clube, atual Jabaquara Atlético Clube. A equipe representava a colônia espanhola da cidade e chamou a atenção daquele grupo.
A experiência despertou uma pergunta entre os portugueses: por que não criar também uma agremiação que representasse sua comunidade?
Naquela época, Santos recebia imigrantes de diferentes nacionalidades e o futebol funcionava como uma importante forma de integração e afirmação cultural. Espanhóis, italianos, ingleses e outros grupos já haviam encontrado no esporte um espaço para preservar suas identidades. A ideia amadureceu durante alguns anos.
Em 19 de novembro de 1917, os interessados se reuniram em um salão de barbeiro localizado na Rua Joaquim Távora. Vários nomes foram discutidos, entre eles Lusitano e Futebol Clube Portugal.
No dia seguinte, 20 de novembro de 1917, a denominação Associação Atlética Portuguesa e os estatutos foram oficialmente ratificados.
Nascia a Briosa.
Verde e vermelho para representar as origens
Desde seus primeiros anos, a nova associação fez questão de preservar a ligação com Portugal. O verde e o vermelho, retirados da bandeira portuguesa, foram adotados como cores oficiais e rapidamente passaram a identificar a equipe nos campos da região.
O próprio apelido “Briosa” ajudou a reforçar essa personalidade. Nos torneios amadores disputados no litoral, o time ganhou fama por conseguir viradas importantes e não se entregar facilmente diante dos adversários. Aos poucos, criou-se a imagem de uma equipe que não aceitava desaforos dentro de campo. Essa característica tornou-se uma das marcas da Portuguesa Santista e acompanhou o clube ao longo de diferentes gerações.
Ulrico Mursa e uma casa que atravessou gerações
Poucos anos depois da fundação, a Portuguesa Santista já possuía uma casa própria. O Estádio Ulrico Mursa foi inaugurado em 5 de dezembro de 1920 e tornou-se um dos símbolos mais duradouros da história da Briosa.O estádio também ganhou importância arquitetônica ao ser apontado como o primeiro da América Latina a possuir cobertura de concreto.
Mais do que uma curiosidade estrutural, Ulrico Mursa tornou-se testemunha de praticamente toda a evolução do clube.
Em suas arquibancadas, torcedores acompanharam partidas estaduais, clássicos locais, campanhas de acesso, títulos e momentos de reconstrução. Ao longo das décadas, o estádio permaneceu como um elo entre a Portuguesa Santista e diferentes gerações de sua torcida.
Os primeiros anos entre os grandes de São Paulo
A Portuguesa Santista rapidamente conquistou espaço nas competições paulistas. Durante as primeiras décadas do século XX, o clube participou dos campeonatos organizados pelas diferentes entidades que administravam o futebol estadual e passou a enfrentar equipes que posteriormente se transformariam em potências do país. A Briosa teve desempenho expressivo especialmente na segunda metade da década de 1930.
Em 1936, 1937 e 1938, terminou o Campeonato Paulista na terceira colocação, resultado que ainda representa uma de suas melhores posições na principal competição estadual. A sequência mostrou que a Portuguesa não era apenas uma representante regional. O clube conseguia competir em alto nível diante das principais equipes de São Paulo.
Da Briosa para uma Copa do Mundo
Nesse mesmo período, um jogador ligado à Portuguesa Santista alcançou um feito histórico. O atacante Tim, que havia defendido o clube antes de se transferir para o Fluminense, integrou a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1938, realizada na França. Sua presença representou um marco para o futebol santista.
A Portuguesa tornou-se a primeira equipe da cidade a revelar um jogador que chegaria a defender o Brasil em uma Copa do Mundo.
Tim participou da partida contra a Tchecoslováquia pelas quartas de final, em Bordeaux. O Brasil venceu por 2 a 1 e terminaria aquela edição do Mundial na terceira colocação. O episódio ajudou a demonstrar a capacidade da Briosa de desenvolver jogadores em um período no qual o futebol brasileiro ainda consolidava sua estrutura profissional.
Entre os clubes que ajudaram a organizar o futebol paulista
A importância institucional da Portuguesa Santista também ultrapassou as quatro linhas. Em 1941, o clube participou da fundação da Federação Paulista de Futebol ao lado de algumas das principais agremiações do estado.
Entre os participantes estavam Corinthians, Palmeiras — ainda denominado Palestra Itália naquele período —, São Paulo, Santos, Juventus, Portuguesa de Desportos, Jabaquara, Ypiranga e Nacional. A presença da Briosa naquele processo reforça o espaço ocupado pela equipe no desenvolvimento do futebol paulista.
Ela não era apenas participante das competições. Também fazia parte das discussões que ajudariam a estruturar o esporte profissional no estado.
O Clássico das Praias e a força do futebol santista
A proximidade geográfica naturalmente transformou a Portuguesa Santista e o Santos Futebol Clube em adversários especiais. Os encontros entre as equipes ficaram conhecidos como Clássico das Praias, especialmente durante as décadas de 1950 e 1960.
Em uma época em que o Santos se consolidava como uma das principais forças do país, enfrentar o rival dentro da mesma cidade oferecia à Portuguesa uma oportunidade de reafirmar sua própria identidade.
A rivalidade não se restringia ao Santos. Jogos contra o Jabaquara também ganharam peso histórico, enquanto os encontros com a Portuguesa de Desportos carregavam a curiosidade de colocar frente a frente duas equipes ligadas à colônia portuguesa. Esses confrontos ajudaram a construir a cultura de arquibancada que acompanha a Briosa até hoje.
A excursão internacional que rendeu a Fita Azul
Em 1959, a Portuguesa Santista viveu um dos episódios mais marcantes de sua história. O clube realizou uma excursão internacional de grande sucesso e recebeu a Fita Azul, distinção concedida às equipes brasileiras que obtinham bons resultados em longas viagens ao exterior. A honraria havia sido associada a clubes importantes do país, entre eles Vasco, Santos e Portuguesa de Desportos.
Para a Briosa, o reconhecimento representava a projeção de uma equipe do litoral paulista em campos internacionais. A excursão também ficou marcada por um episódio de discriminação racial na África do Sul. Três jogadores negros da Portuguesa foram impedidos de entrar em campo na Cidade do Cabo devido às regras segregacionistas então vigentes no país.
O episódio mostrou como o futebol podia ultrapassar os limites esportivos e expor conflitos sociais e políticos de seu tempo.
Do auge estadual aos períodos de crise
A história da Portuguesa Santista também foi marcada por interrupções. Entre 1930 e 1934, o clube ficou fora do Campeonato Paulista por discordar inicialmente da adoção do profissionalismo. Décadas mais tarde, entre 1988 e 1990, uma grave crise financeira levou a Briosa a solicitar licença da Federação Paulista.
A ausência interrompeu uma trajetória tradicional e evidenciou as dificuldades enfrentadas por clubes do interior e do litoral para manter estruturas profissionais diante do aumento dos custos do futebol.
Ainda assim, a Portuguesa conseguiu retornar. Essa capacidade de reconstrução se tornaria uma característica recorrente da instituição.
A campanha de 2003 recoloca a Briosa em destaque
O início dos anos 2000 trouxe um dos momentos mais importantes da história recente da Portuguesa Santista. Em 2003, comandada por Pepe, ídolo histórico do futebol brasileiro, a Briosa surpreendeu no Campeonato Paulista. A equipe empatou com o São Paulo no Morumbi e voltou a vencer o Santos em Ulrico Mursa depois de décadas, triunfando por 2 a 0.
A campanha terminou com a Portuguesa na terceira colocação estadual, repetindo o melhor desempenho obtido pelo clube nas décadas de 1930. O resultado garantiu ainda uma vaga na Copa do Brasil de 2004.
Na competição nacional, a Briosa enfrentou o 15 de Novembro de Campo Bom e foi eliminada após dois empates, pelo critério de gols marcados fora de casa. Mesmo com a eliminação, aquela participação permanece como um dos capítulos especiais de sua trajetória nacional.
Queda até o último nível e um duro recomeço
Depois do bom momento, a Portuguesa voltou a enfrentar dificuldades. Em 2006, disputou pela última vez naquele ciclo a Série A1 do Campeonato Paulista e acabou rebaixada. Três anos depois, caiu para a Série A3. Em 2010, sofreu novo descenso e chegou à última divisão estadual.
A temporada seguinte foi ainda mais dolorosa. Em 2011, a Briosa foi eliminada na primeira fase e terminou entre as piores equipes da competição. Para um clube que havia disputado a elite, colocado jogador em Copa do Mundo e realizado excursões internacionais, aquele momento representava um contraste enorme com os tempos de protagonismo. Era necessário reconstruir praticamente tudo.
A reação que começou em 2016
Depois de seis anos longe das divisões superiores, a recuperação finalmente começou. Em 2016, a Portuguesa Santista realizou uma campanha decisiva na divisão de acesso e eliminou o Taboão da Serra na disputa por uma vaga na Série A3. A classificação marcou o início de uma nova fase.
Pouco depois, a Briosa chegou à final contra o Desportivo Brasil. Após empate por 1 a 1 em Porto Feliz, venceu por 3 a 0 em Ulrico Mursa e conquistou o título. Willian Anicete, com 19 gols, terminou como artilheiro da competição. O troféu representou muito mais do que uma conquista estadual. Simbolizava a saída de uma das fases mais difíceis da história do clube.
Centenário, novo acesso e retomada de espaço
Em 2017, a Portuguesa Santista completou 100 anos. O aniversário foi celebrado não apenas pelo clube, mas pela própria cidade de Santos. A história da Briosa recebeu homenagens inclusive durante o carnaval santista, demonstrando a relação construída entre a instituição e a cultura local.
No ano seguinte, veio mais uma conquista esportiva importante. Em 2018, a equipe terminou como vice-campeã da Série A3 e garantiu acesso à Série A2 de 2019. Era o segundo acesso estadual em apenas três temporadas.
Depois de chegar ao fundo do futebol paulista no começo da década, a Portuguesa recuperava espaço rapidamente.
A Copa Paulista de 2023 e um novo título
A retomada ganhou outro capítulo marcante em 2023. A Portuguesa Santista conquistou a Copa Paulista, acrescentando um dos troféus mais importantes de sua história recente. A competição também devolveu ao clube a oportunidade de disputar a Copa do Brasil, desta vez em 2024.
O título reforçou a percepção de que a Briosa havia recuperado capacidade competitiva e voltado a disputar objetivos relevantes dentro do cenário estadual. Mas, como tantas vezes ocorreu em sua trajetória, os anos seguintes voltariam a exigir resistência.
Da queda em 2025 ao título da Série A3 em 2026
A temporada de 2025 terminou em frustração. A Portuguesa realizou campanha ruim na Série A2, conquistando apenas duas vitórias durante o campeonato e nenhuma em Ulrico Mursa. O rebaixamento foi confirmado na última rodada, após empate sem gols contra o Votuporanguense. A reação, contudo, foi imediata.
Em 2026, a Briosa conseguiu retornar à Série A2 e ainda conquistou o título da Série A3. Na decisão diante do Marília, o primeiro confronto terminou empatado por 2 a 2 no Estádio Bento de Abreu. A definição aconteceu em Ulrico Mursa. Diante de sua torcida, a Portuguesa venceu por 2 a 0.
O segundo gol, marcado por Jeferson Caxito aos 47 minutos do segundo tempo, confirmou o título e provocou uma comemoração intensa nas arquibancadas.
A campanha ainda entrou para a história da competição como uma das mais expressivas desde a adoção do formato mais recente da Série A3. Depois de cair apenas um ano antes, a Briosa respondia com acesso e taça.
Uma história que Santos aprendeu a chamar de Briosa
Mais de um século separa os trabalhadores portugueses reunidos em um salão de barbeiro da equipe que voltou a celebrar um título estadual em Ulrico Mursa.
Nesse intervalo, a Portuguesa Santista viu o futebol brasileiro mudar completamente. Conheceu o amadorismo e o profissionalismo, ajudou a fundar a Federação Paulista, enfrentou gerações históricas dos grandes clubes, revelou jogador de Copa do Mundo, atravessou crises e chegou até o último nível estadual antes de reconstruir sua trajetória.
Poucos clubes carregam de maneira tão evidente a influência de sua origem. O vermelho e o verde, a Cachopinha, o nome Portuguesa e a relação com a comunidade lusitana permanecem como elementos de uma identidade construída desde 1917.
Mas a história da Briosa ainda reserva muitos capítulos que merecem tratamento próprio. As grandes excursões internacionais, a conquista da Fita Azul, os confrontos do Clássico das Praias, os personagens que marcaram Ulrico Mursa, a evolução do escudo, a mascote, os artilheiros e as campanhas memoráveis ajudam a ampliar a dimensão de uma das instituições mais tradicionais do futebol paulista.
Em Santos, onde o futebol faz parte da paisagem e da memória coletiva, a Portuguesa Santista conquistou algo que nenhum resultado pode substituir: uma identidade que atravessou gerações e continua reconhecida por um nome que se tornou parte da cidade — Briosa.




