História do EC São Bernardo: o Vovô do ABC que atravessou quase um século de futebol

Fundado em 1928, o alvinegro sobreviveu a pausas, perda de estádio e décadas de reconstrução no futebol paulista

Por: Neila Gonçalves
2 horas atrás em 1 de outubro de 2026
Foto: Reprodução/@ecsaobernardo

O Esporte Clube São Bernardo carrega uma distinção que ajuda a dimensionar seu lugar na história do futebol do ABC Paulista. Fundado em 3 de fevereiro de 1928, é o clube de futebol mais antigo ainda em atividade em São Bernardo do Campo. Quase um século depois, o chamado Vovô do ABC permanece em campo após atravessar diferentes fases do esporte na cidade, desde os antigos campeonatos regionais até as divisões profissionais do futebol paulista.



Sua trajetória, porém, esteve longe de seguir uma linha contínua. O Bernô viveu períodos de protagonismo regional, ingressou no profissionalismo, perdeu seu estádio, afastou-se dos gramados, absorveu outra equipe e enfrentou décadas de dificuldades antes de iniciar uma nova reconstrução no século XXI.

Essa capacidade de atravessar transformações ajuda a explicar por que o Esporte Clube São Bernardo ocupa um espaço particular na memória esportiva do ABC.

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Das equipes de várzea nasceu o clube mais antigo da cidade

A história do Esporte Clube São Bernardo possui raízes anteriores à própria fundação. Entre 1922 e 1928, depois do encerramento das atividades da Associação Atlética São Bernardo, fundada em 1917, a cidade passou por um período sem uma grande agremiação organizada. O futebol permaneceu vivo principalmente por meio de pequenos clubes de várzea, que disputavam festivais realizados tradicionalmente no Dia do Trabalhador.

Foi acompanhando essas partidas que Dante Setti idealizou a criação de um novo clube capaz de reunir esportistas e torcedores da cidade. A proposta encontrou apoio de Nerino Colli, Vicente Ragghianti e Itagiba de Almeida, ex-jogadores da Associação Atlética São Bernardo e do Internacional Futebol Clube.

Uma reunião realizada no antigo Cine Enrico Caruso, posteriormente chamado Cine São Bernardo, começou em 2 de fevereiro e atravessou a madrugada. No dia seguinte, 3 de fevereiro de 1928, nascia oficialmente o Esporte Clube São Bernardo. Na votação para definir o nome, “Esporte Clube São Bernardo” recebeu 26 votos, contra 21 de “Associação Athlética São Bernardo”.
Começava ali uma trajetória que atravessaria diferentes gerações do futebol da cidade.

O Bernô conquista espaço no futebol do interior

O crescimento aconteceu rapidamente. Poucos anos depois da fundação, o São Bernardo já figurava entre as equipes de destaque da região. Em 1931, um concurso promovido pelo antigo jornal Diário Nacional concedeu ao clube o título de “O Mais Simpático do Interior”, denominação que continuaria ligada à instituição.

A expansão esportiva também levou o Bernô para além das fronteiras paulistas. O clube realizou partidas em Minas Gerais contra Uberlândia e Uberaba, tornando-se o primeiro representante de São Bernardo do Campo a disputar um jogo fora do estado.

Durante a década de 1930, a equipe ingressou no Campeonato Paulista do Interior, competição organizada regionalmente em zonas ou setores. Em 1939, conquistou sua zona, feito repetido posteriormente em 1947, 1948 e 1949.

Outro capítulo importante daquele período envolveu a estrutura do clube. O terreno utilizado para o campo desde os primeiros anos foi definitivamente doado por Ítalo Setti, um dos grandes beneméritos da instituição. A doação estabelecia duas condições: o estádio deveria carregar seu nome e o clube deveria permanecer em atividade.

O espaço passou por melhorias e se tornou a casa do Bernô. Paralelamente, a instituição ampliou sua presença em outras modalidades esportivas, com destaque para o basquete.

A profissionalização muda o patamar do clube

Em 1949, o São Bernardo criou seu Departamento de Futebol Profissional. No ano seguinte, ingressou na Segunda Divisão de profissionais, equivalente à atual Série A2 do Campeonato Paulista.

A adaptação não foi simples. Na estreia, em 1950, o clube terminou a primeira fase na oitava colocação de um grupo com 11 equipes. Em 1951, ficou uma posição abaixo, enquanto a temporada de 1952 terminou com o Bernô na lanterna de sua chave.

Os custos do profissionalismo e os resultados pouco expressivos levaram o clube de volta ao amadorismo em 1953.

O futebol profissional ainda teria novas tentativas. Em 1959, a diretoria encontrou uma alternativa para arrecadar recursos ao organizar amistosos contra grandes equipes no Estádio Ítalo Setti. Santos, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Portuguesa e Ypiranga estiveram entre os visitantes daquele período.

A estratégia ajudava nas despesas do departamento, mas uma transformação urbana ocorrida poucos anos depois mudaria completamente o destino do futebol alvinegro.

O fim do Ítalo Setti afasta o Bernô dos gramados

Em 1967, parte da área do Estádio Ítalo Setti foi desapropriada para a canalização do Ribeirão dos Meninos e a abertura da futura Avenida Brigadeiro Faria Lima.

O impacto foi profundo. Sem seu campo, o Esporte Clube São Bernardo interrompeu as atividades do departamento de futebol e passou a concentrar esforços em outras modalidades.

O afastamento dos gramados não significou o encerramento da instituição. Em 1968, foi inaugurado o Ginásio Moysés Cheid, construído com a participação da comunidade em campanhas de arrecadação de tijolos, telhas e cimento. O clube também inaugurou piscinas e fortaleceu principalmente o basquete, modalidade na qual alcançaria importantes resultados.

Quando chegou ao cinquentenário, em 1978, o São Bernardo continuava longe do futebol.

Naquele momento, quem representava a cidade profissionalmente era o Aliança Clube, equipe fundada em 1969 que teve crescimento rápido e chegou a disputar o quadrangular final da Série A2 em 1976.

As trajetórias dos dois clubes acabariam se encontrando.

A união com o Aliança devolve o Vovô ao futebol

As dificuldades financeiras enfrentadas pelo Aliança aproximaram as duas diretorias. Um processo iniciado em 1978 culminou, em 1981, com a absorção do Aliança pelo Esporte Clube São Bernardo e o consequente retorno do Vovô aos gramados.

A união deixou marcas até mesmo na identidade visual.

Durante o período de transição, oficialmente compreendido entre 1982 e 1989, o uniforme tradicional recebeu uma faixa azul, enquanto duas alianças passaram a aparecer sobre o escudo do São Bernardo. Os elementos foram posteriormente abandonados, e o clube recuperou sua apresentação tradicional.

Dentro de campo, a década foi marcada por oportunidades de acesso que escaparam por pouco. Em 1982, o Bernô esteve próximo do quadrangular final, mas acabou derrotado pelo Bragantino. Novas chances apareceram em 1984 e 1985.

Em 1986, outra tentativa terminou de maneira dolorosa. O São Bernardo perdeu a oportunidade de subir após ser derrotado pelo Bandeirante de Birigui nos minutos finais de uma partida disputada no Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas.

Três anos depois, uma campanha com apenas uma vitória em 12 partidas resultou no rebaixamento para a terceira divisão.

Instabilidade marca os anos 1990

Em 1993, o São Bernardo terminou a competição na terceira colocação e conquistou em campo o direito de disputar a Série A2. A equipe contou naquele período com Luís Pereira, histórico zagueiro com passagens por Palmeiras, Atlético de Madrid e Seleção Brasileira.

A promoção, entretanto, não se concretizou. Uma reorganização das divisões promovida no ano seguinte impediu o acesso do Bernô e de outros clubes que haviam conquistado a subida.

O impacto foi sentido rapidamente. Em 1994, o São Bernardo terminou a terceira divisão na última colocação e sofreu novo rebaixamento.

Nos anos seguintes, acumulou campanhas difíceis nas divisões inferiores. Em algumas temporadas, permaneceu na categoria por acontecimentos extracampo envolvendo desistências, falências ou problemas de outros participantes.

Até que, em 2000, o rebaixamento para o quinto nível estadual finalmente aconteceu.

A temporada seguinte aprofundou a crise. Depois de completar mais de um ano sem vencer, o clube terminou sua participação na última posição e, ao final de 2001, solicitou licença das competições profissionais. Nos anos seguintes, concentrou-se nas categorias de base.

O Vovô do ABC desaparecia novamente do cenário profissional.

O retorno abre uma nova reconstrução

Depois de anos afastado, o São Bernardo anunciou em 2010 seu retorno às competições profissionais.

A primeira campanha começou de maneira animadora, com apenas uma derrota nos seis jogos iniciais. O clube chegou ao fim do primeiro turno na liderança de seu grupo, mas perdeu seis das sete partidas restantes e encerrou o campeonato na penúltima colocação da chave.

Em 2011, a aposta em jogadores das categorias de base começou a mostrar resultados. O time profissional avançou à segunda fase, enquanto a equipe sub-20 alcançou um feito inédito ao conquistar o título estadual da categoria, derrotando o Jabaquara por 3 a 0 na decisão.

As temporadas seguintes ainda foram marcadas por eliminações e tentativas frustradas de acesso. Em 2015, o Bernô realizou uma das melhores campanhas desde a retomada, mas ficou a apenas um ponto da promoção para a Série A3.

O acesso finalmente chegaria dois anos depois.

Depois de anos de espera, o acesso enfim chega

Com Ricardo Costa novamente no comando, o Esporte Clube São Bernardo chegou às finais da Segunda Divisão em 2017 e garantiu a promoção para a Série A3.

O título escapou diante do Manthiqueira. Após empate no Baetão, o Bernô sofreu dois gols rapidamente na partida de volta, em Guaratinguetá, e terminou com o vice-campeonato. Ainda assim, o principal objetivo havia sido alcançado.

A campanha também teve como destaque Felipinho, artilheiro da competição com 14 gols.

Em 2018, de volta ao terceiro nível estadual, o desafio inicial era garantir a permanência. O São Bernardo conseguiu evitar a queda e terminou a competição na 11ª colocação.

No ano seguinte, outro resultado relevante apareceu. Em sua primeira participação na Copa Paulista, o clube avançou até as semifinais e acabou eliminado pelo São Caetano.

Era o início de uma sequência que levaria o Bernô novamente à Série A2

Três décadas depois, o Bernô retorna à Série A2

Em 2020, o Esporte Clube São Bernardo chegou à decisão da Série A3. O título ficou com o Velo Clube, mas o vice-campeonato teve um significado especial: garantiu ao alvinegro o acesso à Série A2.

O clube voltaria a disputar o segundo nível estadual depois de 32 anos.

A permanência, entretanto, durou apenas uma temporada. Em 2021, o Cachorrão somou nove pontos em 15 partidas, terminou na 15ª posição e acabou rebaixado.

Na volta à Série A3, em 2022, apresentou uma reação imediata. O Bernô chegou às semifinais e enfrentou o Noroeste. Cada equipe venceu uma partida por 2 a 0, e o clube de Bauru avançou por possuir campanha superior na classificação geral.Nos anos seguintes, o Esporte Clube São Bernardo permaneceu presente na Série A3, dando continuidade a uma história marcada justamente pela capacidade de recomeçar.

Preto, branco e um Cachorrão como símbolos do Vovô

A identidade do Esporte Clube São Bernardo também atravessou praticamente um século.

O clube utiliza como mascote um cão da raça São Bernardo, escolha diretamente relacionada ao nome da cidade. O personagem foi criado pelo cartunista são-bernardense Juarez Correa e ajudou a consolidar o apelido Cachorrão, hoje uma das formas mais populares de se referir à equipe.

O preto e o branco também fazem parte dessa tradição. Distintivo e uniformes preservaram suas características históricas, com uma exceção particularmente interessante justamente durante a incorporação do Aliança.

Entre 1982 e 1989, as duas alianças sobre o escudo e a faixa azul nas camisas registraram visualmente aquele período de transição. A partir de 1990, essas alterações foram abandonadas.

Outra parte importante da identidade alvinegra está nas rivalidades. O adversário mais tradicional é o Palestra de São Bernardo, clube fundado em 1935. O confronto ficou conhecido principalmente como Clássico Batateiro, embora também seja chamado de Dérbi de São Bernardo e clássico dos metalúrgicos.

Uma história construída também pela resistência

Quase cem anos separam aquela reunião no Cine Enrico Caruso do Esporte Clube São Bernardo atual. Nesse intervalo, o clube viu o futebol se transformar, passou pelo amadorismo e pelo profissionalismo, perdeu sua primeira casa, interrompeu atividades, voltou aos gramados e percorreu diferentes níveis do Campeonato Paulista.

Poucas trajetórias poderiam explicar tão bem o significado do apelido Vovô do ABC.

Não se trata somente de ser o clube mais antigo em atividade na cidade. O São Bernardo atravessou diferentes eras do esporte regional e conseguiu preservar uma identidade mesmo nos períodos em que o futebol deixou de fazer parte de sua rotina.

A história do Bernô também abre espaço para outros capítulos que merecem ser contados separadamente: o antigo Estádio Ítalo Setti, as transformações de seu escudo durante a união com o Aliança, o Cachorrão, o Clássico Batateiro e os personagens que ajudaram a manter viva uma instituição fundada em 1928 e que segue fazendo parte da memória esportiva de São Bernardo do Campo.