Clube responde subsidiariamente em dez dos 13 processos com decisões judiciais; ações contra a antiga parceira CDS superam R$ 2,8 milhões.
Foto: Reprodução/Instagram O Corinthians acumula condenações na Justiça do Trabalho relacionadas a irregularidades na antiga divisão de esportes eletrônicos do clube. Mesmo após licenciar a operação para a empresa CDS, o time alvinegro foi responsabilizado subsidiariamente em processos cujos valores ultrapassam R$ 2,8 milhões.
Um levantamento realizado pelo ge nos Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs) identificou 30 ações trabalhistas envolvendo a CDS e o Corinthians. Desse total, sete tiveram condenações em primeira instância e seis chegaram a decisões condenatórias em segunda instância. Os outros 17 processos ainda não receberam sentença.
Entre as 13 ações que já tiveram decisões judiciais, o Corinthians foi condenado junto à empresa em dez casos. As três decisões que não responsabilizaram o clube ocorreram em primeira instância.


Por que o Corinthians foi responsabilizado?
Nas decisões, magistrados consideraram que, embora os contratos dos atletas fossem formalizados pela CDS, o Corinthians também se beneficiava da atividade desenvolvida sob sua marca e estrutura. Por esse entendimento, o clube pode responder subsidiariamente quando a empresa contratada não cumpre suas obrigações trabalhistas.
O advogado Helio Tadeu Brogna Coelho, que representa ex-funcionários nas ações, explicou a interpretação adotada em diferentes processos.
“Os atletas prestavam serviços dentro de uma operação que utilizava a marca, a estrutura e o projeto de eSports do Corinthians, ainda que a contratação formal fosse feita por uma empresa intermediária. O entendimento que tem prevalecido é de que o clube se beneficiou diretamente daquele trabalho e, por isso, pode responder subsidiariamente pelas obrigações trabalhistas não cumpridas pela empresa contratada”, afirmou.
Em uma das decisões, a desembargadora Jane Granzoto Torres da Silva, relatora de um processo envolvendo um ex-jogador, destacou que a empresa não cumpriu integralmente suas obrigações trabalhistas. A magistrada entendeu que o Corinthians deveria assumir a responsabilidade subsidiária pelos direitos do trabalhador, diante da contratação de uma prestadora de serviços que não honrou os compromissos.
Dívidas da CDS foram direcionadas ao clube
Em um dos processos, uma ação de execução provisória apontou uma condenação de R$ 85.455,74. Como a CDS não efetuou o pagamento e a Justiça não encontrou bens para bloqueio, a cobrança foi redirecionada ao Corinthians.
Em outro caso, envolvendo uma ex-jogadora, a empresa pagou apenas R$ 20,5 mil de um acordo parcelado de R$ 58 mil. Com a inadimplência, o clube precisou arcar com R$ 42,9 mil em valores corrigidos.
Nesse processo, a Justiça reconheceu vínculo empregatício e condenou os envolvidos por atrasos salariais e indenizações por danos morais, entre outras obrigações.
As ações apresentam diferentes reivindicações, mas o reconhecimento de vínculo empregatício e a cobrança de salários atrasados estão entre os principais pedidos. Em geral, os valores atribuídos aos processos variam de R$ 30 mil a R$ 100 mil, embora sete ações tenham valores superiores.
Uma ex-coordenadora da divisão de eSports também obteve parte dos pedidos atendidos em primeira instância, em uma condenação de aproximadamente R$ 200 mil. O processo inclui, além da CDS e do Corinthians, dois ex-responsáveis pelo setor e empresas ligadas a eles. O valor definitivo ainda será calculado.
Corinthians cobra R$ 439,7 mil da empresa
Em nota, o Corinthians afirmou que já realizou uma cobrança formal de R$ 439,7 mil contra a CDS. O clube argumenta que as condenações não eliminam a responsabilidade da empresa gestora nem o direito de exigir o ressarcimento integral dos prejuízos.
“O Corinthians considera particularmente grave que sua marca e sua credibilidade sejam associadas às consequências de uma operação cuja gestão administrativa, financeira e trabalhista havia sido expressamente confiada a terceiros”, declarou o clube.
O contrato de licenciamento foi firmado em julho de 2022 e permitia que a CDS utilizasse a marca corintiana na operação de eSports. A empresa era responsável pela contratação dos jogadores que representavam a equipe em competições de games.
O vínculo foi rescindido em setembro de 2025, em meio a acusações de irregularidades, problemas administrativos e atrasos salariais.
Especialistas apontam falhas na fiscalização
Para o advogado Wagner Dias, que representa atletas de eSports ao lado da advogada Layla Rodrigues, o principal impacto está no acúmulo de processos, mesmo que os valores individuais sejam menores quando comparados às cifras do futebol profissional.
“O valor de cada ação é pequeno para o porte do Corinthians, e o impacto financeiro isolado é limitado. O problema é o efeito acumulado: muitas ações do mesmo tipo, com o clube respondendo por uma dívida que não administrou”, avaliou.
Dias também apontou a necessidade de fiscalização sobre empresas que recebem autorização para utilizar a marca de um clube.
“Quem licencia a marca e ainda se beneficia da operação tem o dever de acompanhar quem a utiliza. Faltou fiscalização preventiva: verificar a saúde financeira da licenciada, exigir comprovação do pagamento de salários e ter cláusulas contratuais de garantia. Isso poderia ter evitado a responsabilização do Corinthians”, concluiu.
Os valores definitivos das condenações dependem da fase de execução de cada processo, quando são calculados os montantes devidos, com atualização monetária e juros.