Flávio Marques fez análise sobre problemas financeiros do Tricolor Paulista
Foto: Paulo Pinto / saopaulofc.netO conselheiro do São Paulo Futebol Clube, Flávio Marques, detalhou a atual situação financeira da instituição e revelou que, apesar de o clube ter registrado um superávit de R$ 57 milhões em 2025, o endividamento efetivo apresentou um aumento real de R$ 55 milhões.
Segundo a sua análise, a aparente redução do passivo é ilusória, pois decorre do registro de vendas excepcionais de direitos econômicos de atletas cujos recebimentos ocorrerão a longo prazo, enquanto a agremiação precisa lidar com R$ 600 milhões no curto prazo.
No encerramento do balanço de 2025, a dívida líquida são-paulina alcançou o patamar de R$ 858 milhões, o que representa um acréscimo de R$ 283 milhões na comparação com os números observados em 2020, sendo que metade de todo esse montante é composta por compromissos imediatos.
A redução contábil anunciada de R$ 110 milhões no endividamento líquido foi impulsionada, em grande parte, pelo incremento de R$ 165 milhões na linha de direitos a receber pelas negociações de jogadores, mascarando as reais necessidades de caixa do clube.
Mudança na dívida
No início do ano de 2025, o Tricolor acumulava obrigações totais a pagar na casa de R$ 1,067 bilhão, das quais R$ 637 milhões tinham vencimento programado para dentro do próprio exercício, gerando uma forte pressão sobre as finanças no dia a dia.
Quando confrontado com o ano de 2024, o balanço revelou dois acréscimos preocupantes: uma elevação de R$ 19 milhões nas dívidas com instituições bancárias e um salto de R$ 70 milhões nos compromissos de curto prazo, enquanto os débitos de longo prazo recuaram R$ 51 milhões.
Para gerenciar o fluxo de caixa, a diretoria captou R$ 174,4 milhões em novos empréstimos financeiros em 2025, mas consumiu R$ 154,9 milhões dessa quantia apenas para amortizar e rolar empréstimos contraídos anteriormente, em uma espécie de bola de neve.
O principal fator de alívio nas contas do período veio da renegociação de débitos tributários com a União, onde o São Paulo garantiu um desconto expressivo de 68,17% sobre o montante acumulado de multas e juros, gerando uma economia líquida de R$ 55,6 milhões.
Investimento em atletas
Em contrapartida, os gastos operacionais com o mercado da bola seguiram em alta, evidenciados pelo crescimento das comissões devidas a intermediários e agentes de atletas em transferências e renovações, que subiram de R$ 74 milhões para R$ 104 milhões. O endividamento referente a acordos cíveis e trabalhistas também se expandiu até atingir R$ 80 milhões, englobando desde pendências logísticas com a CET-SP até o cronograma de pagamentos devidos pela rescisão contratual com o lateral Daniel Alves.
Nas obrigações trabalhistas gerais voltadas aos funcionários do clube, notou-se um acréscimo de R$ 15 milhões em relação ao ano anterior. No departamento de futebol, as pendências financeiras ligadas a direitos de imagem também exibiram números pesados.
O clube fechou o período com R$ 18,4 milhões pendentes em luvas e metas contratuais de imagem, além de R$ 29,6 milhões em contratos já rescindidos ou finalizados. Quanto aos direitos econômicos do elenco, houve uma diminuição de R$ 31 milhões no saldo devedor.
Contudo, dos R$ 60 milhões restantes dessa categoria, 90% estão concentrados no curto prazo, incluindo faturas de atletas que já deixaram a equipe há algum tempo, como o meio-campista Gabriel Neves e o atacante Michel Araújo.
MorumBIS
Adicionalmente, o clube registrou um passivo de R$ 151 milhões atrelado a adiamentos de contratos, majoritariamente de locação de estádios alternativos quando o MorumBIS precisa ser cedido para grandes shows. As dívidas financeiras institucionais escalaram para R$ 140 milhões.
Por fim, o conselheiro destacou o desempenho do Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, criado em 2024 sob a premissa de mitigar a dependência bancária e baratear os custos financeiros da instituição, mas que não entregou o resultado esperado. Tanto o endividamento com bancos quanto os custos operacionais subiram em 2025, fazendo com que a participação do clube no FIDC gerasse um balanço negativo de R$ 23,9 milhões, frustrando os planos da diretoria de reduzir os juros pagos.
Flávio Marques encerra a sua avaliação apontando que, diante desse cenário de asfixia financeira camuflada, o São Paulo necessita adotar urgentemente mudanças drásticas e profundas em suas práticas de gestão fiscal e rígido controle de gastos. Segundo o conselheiro, somente através de uma postura austera será viável, a médio prazo, restabelecer a capacidade de realizar investimentos expressivos no futebol profissional do clube, que é o principal e histórico ativo do Tricolor Paulista.