Do bar São Pedro à elite: o século de futebol do XV de Jaú

O Galo da Comarca nasceu em 1924, conquistou dois acessos à elite paulista e fez da formação de jogadores uma de suas marcas

Por: Neila Gonçalves
2 horas atrás em 17 de agosto de 2026
Foto: Divulgação/XV de Jau

O endereço de nascimento era um bar. O nome escolhido lembrava uma das datas mais importantes da história brasileira. As cores reproduziam o verde e o amarelo da bandeira nacional. Assim começou, em 1924, uma trajetória que faria do XV de Jaú muito mais do que um representante de sua cidade nos campeonatos estaduais.

Ao longo de um século, o Galo da Comarca experimentou quase todos os extremos possíveis no futebol: saiu do amadorismo, conquistou duas vezes o caminho para a elite paulista, permaneceu durante anos enfrentando os principais clubes do estado, lotou seu estádio, sofreu com rebaixamentos e problemas financeiros e precisou interromper suas atividades. Paralelamente, construiu uma reputação que ultrapassou resultados e divisões: a de clube capaz de descobrir e desenvolver jogadores que posteriormente ganhariam destaque no Brasil e no exterior.

Um clube nascido no dia da República

A história começou em 15 de novembro de 1924. Reunidos no bar São Pedro, esportistas de Jaú discutiam a criação de uma equipe formada por jogadores da própria cidade. Entre os participantes estavam José Piragine Sobrinho e Herminio Cappabianca.
Daquele encontro surgiu o Esporte Clube XV de Novembro de Jaú.

A escolha do nome homenageava a Proclamação da República, ocorrida exatamente 35 anos antes da fundação do clube. A referência nacional também apareceu no uniforme: verde, amarelo e branco foram escolhidos como as cores da nova agremiação.

Nos primeiros anos, o XV encontrou seu espaço principalmente nas competições amadoras do interior. Em uma época na qual o futebol paulista se desenvolvia para além da capital, os campeonatos regionais eram fundamentais para fortalecer clubes e criar rivalidades entre cidades próximas. Foi nesse ambiente que o time jauense começou a construir sua reputação.

Como nasceu o Galo da Comarca

Antes mesmo de entrar no profissionalismo, o XV ganhou uma identidade que atravessaria gerações. Em 1931 surgiu o apelido Galo da Comarca. A alcunha teria nascido durante uma reunião envolvendo representantes das equipes que integravam a terceira zona de um campeonato organizado pela Associação Paulista de Esportes Athléticos. Além do XV, estavam naquele grupo equipes de Barra Bonita, Dois Córregos e Bocaina.

Durante uma divergência entre os representantes, Antônio Galizia, do Bocaina, teria afirmado que o XV queria ser “o galo” e que seria necessário quebrar sua “crista”. Manoel do Porto, representante jauense, respondeu perguntando se aquilo significava que o XV queria ser o “Galo da Comarca”. A expressão permaneceu. O que começou em uma discussão administrativa acabou transformado em uma das marcas mais reconhecidas do clube.

O profissionalismo abre uma nova história

Durante aproximadamente duas décadas, o XV permaneceu concentrado no futebol amador. A mudança aconteceu em 1948, quando o clube decidiu ingressar oficialmente no profissionalismo e passou a disputar a Segunda Divisão do Campeonato Paulista. Não demoraria muito para que essa decisão produzisse um dos maiores resultados da história jauense.

Em 1951, apenas quatro anos depois da estreia profissional, o XV realizou a campanha que abriu as portas da principal divisão estadual. A definição aconteceu diante do Jabaquara.

Depois de vencer o adversário por 1 a 0 em um jogo extra disputado em Campinas, em fevereiro de 1952, o clube confirmou o título da Segunda Divisão e conquistou o acesso. Pela primeira vez, o XV de Jaú estava entre os principais times do futebol paulista.

O Galo encontra os grandes

A chegada à elite mudou a dimensão dos desafios. O clube que havia crescido nos campeonatos do interior agora passava a enfrentar regularmente algumas das principais equipes do estado. O XV conseguiu permanecer durante oito temporadas consecutivas no nível mais alto do Campeonato Paulista. Esse período também proporcionou encontros que extrapolaram as competições oficiais.

Em março de 1953, o Flamengo visitou Jaú para um amistoso que terminou empatado por 2 a 2. Meses depois, foi a vez de o XV retribuir a visita. O destino era bem diferente dos campos aos quais a equipe estava acostumada: o Maracanã.

Em 10 de setembro, Flamengo e XV de Jaú protagonizaram um movimentado empate por 4 a 4 no maior estádio brasileiro daquele período. Para um clube do interior paulista que havia se profissionalizado apenas cinco anos antes, enfrentar o Flamengo no Rio de Janeiro e deixar o Maracanã sem ser derrotado tornou-se um episódio especial daquela primeira passagem pela elite. O ciclo terminou em 1959, com o rebaixamento para a Segunda Divisão.

Uma pausa antes de um novo capítulo

Depois da queda, o XV passou nove edições tentando reencontrar o caminho da principal divisão. Em 1968, porém, optou por interromper sua participação no futebol profissional. O afastamento durou alguns anos, mas não significou ausência de projetos.

Foi justamente durante esse período que começou uma mudança fundamental na estrutura do clube: a construção de uma nova casa. O Estádio Zezinho Magalhães foi inaugurado em 1973.

A primeira partida aconteceu em 15 de agosto, contra o Juventus. O XV foi derrotado por 2 a 1, mas Dejair Godoy marcou o primeiro gol da história do novo estádio. Dois anos mais tarde, o clube retomou oficialmente suas atividades profissionais. A volta seria seguida por uma das fases mais importantes de toda a sua trajetória.

1976: o ano que devolveu o XV à elite

O retorno iniciado em 1975 rapidamente se transformou em uma campanha histórica. Em 1976, o XV conquistou novamente a Primeira Divisão, equivalente à atual Série A2. O título garantiu acesso à então Divisão Especial.

Diferentemente da primeira passagem, entretanto, desta vez o clube conseguiria construir uma permanência muito mais longa entre os principais times paulistas. O Galo da Comarca iniciou um ciclo que atravessaria o restante dos anos 1970, toda a década de 1980 e chegaria ao começo dos anos 1990. Era a consolidação de um clube do interior no principal cenário estadual.

O dia em que mais de 24 mil pessoas foram ao Jauzão

A força daquela fase também podia ser medida pelas arquibancadas. Em 1977, o Zezinho Magalhães recebeu um dos maiores públicos de sua história. O adversário era o Corinthians. Nada menos que 24.533 pessoas acompanharam o confronto pelo Campeonato Paulista.

O número ajuda a dimensionar o espaço ocupado pelo XV naquele momento. Grandes equipes visitavam Jaú para compromissos oficiais, e a cidade transformava esses encontros em acontecimentos capazes de mobilizar milhares de pessoas. O estádio se consolidava como a casa do Galo e como um dos símbolos de sua longa permanência na elite. Mas a década de 1970 também deixou uma lembrança dolorosa.

Uma tragédia que marcou Jaú

O ano do segundo acesso também ficou marcado por um episódio que ultrapassou o futebol. Em 1976, depois de uma partida contra o Grêmio Sãocarlense, em São Carlos, houve uma briga entre torcedores. Na viagem de retorno para Jaú, uma caravana sofreu um grave acidente na Rodovia Luís Augusto de Oliveira. Torcedores do XV morreram. A tragédia provocou comoção na cidade e se tornou parte da memória do clube e de sua torcida.

É um daqueles capítulos em que resultados e classificações perdem completamente a importância. A história de uma agremiação também é formada pelas pessoas que a acompanham, e aquele episódio deixou uma marca profunda na comunidade jauense.

Quase duas décadas entre os principais clubes paulistas

A partir do acesso de 1976, o XV iniciou sua mais longa sequência na principal divisão estadual. Durante esse período, o clube atravessou diferentes gerações e viveu as profundas transformações pelas quais passou o futebol brasileiro.

Enquanto grandes equipes aumentavam suas estruturas e receitas, o Galo continuava representando uma cidade do interior em um campeonato extremamente competitivo. A permanência terminou somente em 1993, com o rebaixamento para a Série A2.

Foram quase duas décadas que ajudaram a fixar o XV no imaginário do futebol paulista. A ausência da elite, inicialmente, seria curta. Depois de disputar a A2 em 1994 e 1995, o clube conseguiu retornar à primeira divisão em 1996. A recuperação, entretanto, não teve continuidade. No ano seguinte, sofreu novo rebaixamento.

Em 1998, veio outro golpe: a queda para a Série A3. Começava uma fase bastante diferente daquela vivida nas décadas anteriores.

Do retorno à A2 a uma nova queda

Os anos 2000 trouxeram uma tentativa de recuperação. Em 2006, o XV terminou a Série A3 como vice-campeão e garantiu o acesso à Série A2. Parecia o início de uma nova escalada. O clube, porém, não conseguiu sustentar o crescimento por muito tempo.

Três anos depois, retornou à Série A3. A situação ficou ainda mais delicada em 2012. O Galo chegou à última rodada precisando vencer o Taboão da Serra no Zezinho Magalhães para evitar o rebaixamento. O adversário ocupava a lanterna da competição, mas o XV não conseguiu passar de um empate por 2 a 2. O resultado levou o clube à então Série B1, o quarto nível estadual. Para uma equipe que havia permanecido por tantos anos na elite, a queda representava uma mudança radical de realidade.

As dificuldades que tiraram o XV de campo

Os problemas esportivos eram acompanhados por uma situação financeira complicada. Dívidas e consequências de administrações anteriores passaram a limitar a capacidade do clube de manter suas atividades. Em 2015, o XV não conseguiu disputar a quarta divisão estadual e suspendeu seu futebol profissional. Era mais um momento de incerteza na história do Galo.

A interrupção, porém, não seria definitiva. No ano seguinte, uma parceria com empresários da região permitiu a retomada das atividades. Mais uma vez, o XV precisava reconstruir sua trajetória a partir das divisões inferiores.

Essa capacidade de voltar depois de períodos difíceis passou a fazer parte da própria identidade de um clube que, ao longo de sua existência, alternou momentos de grande protagonismo com fases de sobrevivência.

Um clube que aprendeu a formar jogadores

Existe, entretanto, outro caminho para entender a importância do XV de Jaú. Ele não passa necessariamente pelas classificações. Ao longo das décadas, o clube desenvolveu uma reputação nacional pela formação de jogadores.

Especialmente entre os anos 1980 e o início da década de 1990, as categorias de base ganharam enorme importância dentro da estrutura jauense. Equipes infantis, juvenis e de juniores passaram a receber atenção especial, enquanto o chamado Expressinho misturava profissionais e jovens jogadores em amistosos pelo interior.

Essas partidas também serviam para observar novos talentos, posteriormente convidados para treinar em Jaú. O trabalho rendeu frutos.

Jogadores que passaram pelo processo de formação ou pelo início da carreira no clube posteriormente chegaram a grandes equipes brasileiras, ao futebol europeu e a seleções nacionais. Entre os nomes associados a essa tradição estão Sormani, Dino Sani, Marolla, Wilson Mano, Sonny Anderson, Edmílson, França, Edu, Ralf e Leandro Castán, além do japonês Kazuyoshi Miura. A lista é extensa e merece um capítulo próprio dentro da história do XV.

Mais importante do que enumerá-la é compreender o que ela representa: em diferentes períodos, Jaú tornou-se um ponto importante do mapa brasileiro de formação de jogadores.

A base como patrimônio do Galo

Os resultados das categorias inferiores também ajudaram a consolidar essa reputação. Em 1983, a equipe de juniores foi vice-campeã paulista. Dois anos depois, o XV conquistou o Campeonato Paulista Juvenil, em uma geração que contou com jovens que posteriormente seguiriam carreira profissional. O trabalho continuou produzindo resultados nas décadas seguintes.

Um dos maiores aconteceu em 2005, quando o XV de Jaú conquistou o Campeonato Paulista Sub-20 da Primeira Divisão. A decisão tornou o feito ainda mais significativo: o Galo derrotou o Santos em plena Vila Belmiro.

Outros títulos estaduais de base vieram posteriormente, reforçando uma tradição que resistiu mesmo quando a equipe profissional enfrentava dificuldades. A relação do clube com o desenvolvimento de jogadores, portanto, não surgiu de maneira ocasional. Ela foi construída durante décadas.

O centenário e a força de uma identidade que permanece

Em 2024, o XV completou 100 anos. No mesmo ano, uma cena envolvendo justamente as categorias de base mostrou que a ligação entre o clube e Jaú permanecia viva. Na Copa São Paulo de Futebol Júnior, o Galo avançou da fase de grupos depois de cinco anos sem conseguir superar essa etapa. Na sequência, enfrentou o CRB no Zezinho Magalhães. Mais de 9,5 mil torcedores foram ao estádio.

O XV acabou eliminado nos pênaltis, mas o resultado esportivo não foi a única marca deixada pela partida. O público mostrou que o clube ainda possuía capacidade para mobilizar a cidade e levar novamente às arquibancadas pessoas que estavam afastadas do estádio. Um século depois daquela reunião no bar São Pedro, o futebol continuava fazendo parte da identidade jauense.

Um Galo que deixou marcas muito além de Jaú

A história do XV de Jaú possui características difíceis de resumir apenas em títulos. Os campeonatos da divisão de acesso conquistados em 1951 e 1976 são fundamentais porque abriram as portas da elite. A longa permanência entre os principais clubes paulistas mostrou a dimensão que o Galo alcançou. Os rebaixamentos, as crises e a interrupção das atividades revelam, por outro lado, como manter uma equipe tradicional competitiva pode ser difícil fora dos grandes centros financeiros do futebol. Mas existe ainda outro legado.

Poucos clubes podem falar sobre formação de atletas com a quantidade de personagens que passaram por Jaú. Das gerações das décadas passadas aos títulos conquistados pela base, o desenvolvimento de jogadores tornou-se parte da identidade do XV tanto quanto o verde e amarelo ou o apelido Galo da Comarca. E cada um desses elementos ainda guarda histórias próprias.

A origem curiosa do apelido, os grandes públicos do Zezinho Magalhães, os anos de elite, os jogadores revelados pelo clube, as excursões internacionais da base, o escudo, o estádio e as campanhas mais marcantes permitem aprofundar, em outros capítulos, uma trajetória que já ultrapassou seu primeiro século.

Tudo começou com alguns esportistas reunidos em um bar em 1924. Cem anos depois, o XV de Jaú continua carregando no futebol paulista um nome que se tornou inseparável de sua cidade: Galo da Comarca.