Tricolor passou de um início histórico no Brasileirão à proximidade do Z-4; sucessivas trocas de comando, mudanças no elenco, lesões e problemas extracampo ajudam a explicar o momento
Foto: Divulgação/São Paulo FC A derrota para a Chapecoense por 1 a 0, no último domingo (23), colocou o São Paulo diante de um cenário que parecia improvável no início do Campeonato Brasileiro. Depois de começar a competição entre os primeiros colocados, o Tricolor chegou a dez rodadas consecutivas sem vitória, caiu para a 13ª posição, com 27 pontos, e está apenas três acima da zona de rebaixamento. A crise atual, porém, não pode ser explicada apenas pelos últimos resultados ou pelo trabalho de Dorival Júnior. Ela é resultado de uma sequência de mudanças e problemas acumulados desde a temporada passada.
Um dos principais sinais de instabilidade está no banco de reservas. Desde o início de 2025, quatro treinadores diferentes comandaram o time profissional: Luis Zubeldía, Hernán Crespo, Roger Machado e Dorival Júnior. Em pouco mais de um ano, o São Paulo passou por projetos com ideias e características distintas, sem conseguir estabelecer uma continuidade técnica duradoura.
Zubeldía começou 2025 no cargo, mas deixou o clube em junho daquele ano, depois de uma sequência de três derrotas no Brasileirão. O argentino estava no São Paulo desde abril de 2024 e encerrou sua passagem com 85 partidas disputadas. Na sequência, a diretoria apostou no retorno de Hernán Crespo, que iniciou sua segunda passagem pelo Tricolor.
Crespo permaneceu até março de 2026 e sua demissão talvez seja o exemplo mais claro de como as mudanças no São Paulo não estiveram ligadas somente aos resultados. Quando saiu, o time ocupava a vice-liderança do Brasileirão e tinha apenas uma derrota nas oito partidas anteriores. Internamente, porém, havia insatisfação com decisões tomadas pelo treinador em jogos importantes, declarações consideradas pessimistas e avaliações negativas sobre aspectos do trabalho diário.
Roger Machado foi contratado logo depois, mas permaneceu apenas dois meses. Em 17 partidas, acumulou sete vitórias, quatro empates e seis derrotas. A eliminação para o Juventude na Copa do Brasil, com derrota por 3 a 1, foi determinante para sua saída em maio. Assim, o clube precisou buscar seu terceiro treinador somente em 2026.
Dorival Júnior retornou para sua terceira passagem com a missão de recuperar a confiança do grupo e estabilizar o futebol. Até agora, entretanto, o efeito não apareceu no Campeonato Brasileiro. Em sete rodadas sob seu comando, o São Paulo ainda não venceu: foram três empates, quatro derrotas e apenas três pontos de 21 possíveis, aproveitamento de 14,3%. Nesse recorte, somente o Vasco teve campanha pior.
O contraste ajuda a dimensionar a queda. Nas seis primeiras rodadas do Brasileirão, o São Paulo conquistou 16 de 18 pontos, com cinco vitórias e um empate, o melhor início do clube na história da competição. Quatro desses jogos ainda foram comandados por Crespo e dois por Roger. Depois daquele período, o Tricolor somou apenas 11 pontos em 17 partidas, aproveitamento de 21,5%.
As trocas constantes de treinador também aconteceram enquanto o próprio elenco passava por uma transformação significativa. Apenas em 2026, 13 jogadores que chegaram a ser relacionados para partidas oficiais deixaram o São Paulo até o início de agosto. As saídas envolveram negociações, empréstimos, redução da folha salarial, falta de espaço e decisões dos próprios atletas.
Essa reformulação atingiu diretamente Dorival. Nos dez primeiros jogos de sua passagem, o treinador não conseguiu repetir uma única escalação. Saídas de jogadores e problemas físicos obrigaram a comissão técnica a alterar constantemente a formação, dificultando a criação de uma base e de mecanismos coletivos mais consolidados.
As lesões ampliaram esse problema. Atualmente, nomes importantes estão ou estiveram recentemente no departamento médico, entre eles Lucas, Victor Sá, Bobadilla e Arboleda. Calleri também sofreu uma entorse no tornozelo esquerdo contra a Chapecoense e deve ficar fora do confronto com o Red Bull Bragantino. A sequência de baixas ajuda a explicar as dificuldades para manter uma estrutura fixa, ainda que não justifique sozinha o desempenho apresentado.
Dentro de campo, os problemas também se repetem. O São Paulo tem encontrado dificuldades para transformar períodos de domínio em gols e, ao mesmo tempo, cometido erros defensivos decisivos. As bolas paradas, por exemplo, se tornaram um problema durante a sequência negativa: na derrota de virada para o Grêmio, os dois gols adversários nasceram dessa maneira.
Há ainda uma crise que ultrapassa as quatro linhas. O clube passa por atrasos salariais e sofreu um transfer ban da Fifa em julho por uma dívida de 1,05 milhão de euros com a Lazio pela contratação de Marcos Antônio. O débito foi posteriormente pago, permitindo a retirada da punição, mas semanas depois o São Paulo recebeu novo prazo para quitar R$ 1,1 milhão devido ao Novorizontino e evitar outra restrição.
Os problemas financeiros também interferiram na montagem do elenco. Além das dificuldades para contratar, o São Paulo buscou reduzir a folha salarial durante a janela e negociou jogadores que faziam parte do grupo. Enzo Díaz, por exemplo, notificou o clube por atraso salarial em meio às discussões sobre seu futuro.
A insatisfação chegou às arquibancadas. Depois da derrota para a Chapecoense, representantes de torcidas organizadas se reuniram com jogadores e integrantes da diretoria de futebol no CT da Barra Funda. As lideranças decidiram manter o apoio ao elenco, mas aumentaram as cobranças sobre os responsáveis pela administração do clube.
Por isso, reduzir a atual situação à figura de Dorival Júnior seria simplificar um problema mais amplo. O treinador possui números ruins no Brasileirão e ainda não conseguiu encontrar uma resposta dentro de campo, mas assumiu uma equipe que já vinha atravessando mudanças sucessivas de comando, reformulação de elenco, dificuldades financeiras e problemas físicos.
É justamente essa avaliação que faz a diretoria, neste momento, descartar uma nova troca. Internamente, o entendimento é de que os problemas do São Paulo ultrapassam o trabalho de Dorival e que demitir o quarto treinador utilizado desde o início de 2025 poderia acrescentar mais instabilidade a um ambiente que já conviveu com mudanças demais.
O desafio agora é interromper a queda antes que a crise se transforme em uma luta ainda mais direta contra o rebaixamento. O São Paulo tem 14 rodadas pela frente e um jogo atrasado, mas está apenas três pontos acima do Z-4. A primeira oportunidade de reação será no sábado (29), às 20h (horário de Brasília), contra o Red Bull Bragantino, no Morumbis.
Mais do que uma vitória, o Tricolor precisa encontrar algo que faltou durante boa parte dos últimos meses: continuidade. Depois de quatro treinadores, dezenas de mudanças no elenco e problemas dentro e fora de campo, a crise atual mostra que simplesmente trocar novamente quem está à beira do gramado pode não ser suficiente.