Ex-presidente abriu mão do título de sócio remido, dos cargos no Conselho e se desliga do quadro associativo do Parque São Jorge
Foto: Rodrigo Coca/Agência CorinthiansPresidente do Corinthians entre 2021 e 2023, Duilio Monteiro Alves renunciou ao título de sócio remido e abriu mão dos cargos de conselheiro vitalício e membro do Conselho de Orientação, o CORI.
A decisão foi anunciada por meio de carta aberta publicada nas redes sociais. Com a renúncia, o ex-presidente se desliga de forma definitiva do quadro associativo do Parque São Jorge.
Duilio vinha sendo investigado internamente pelo uso de cartão corporativo durante o período em que comandou o clube. Com a saída, o ex-dirigente evita o julgamento no Conselho Deliberativo que poderia resultar em sua expulsão do Corinthians.
A renúncia ocorre poucos dias depois da expulsão de Andrés Sanchez, definida em votação realizada no Parque São Jorge na última segunda-feira. O ex-presidente foi excluído do quadro associativo por uso indevido de recursos do clube para despesas pessoais.
Apesar do desligamento interno, Duilio ainda responde na Justiça. Em março, o ex-presidente se tornou réu pelo crime de apropriação indébita após a Justiça de São Paulo aceitar denúncia apresentada pelo Ministério Público.
De acordo com o promotor Cássio Conserino, responsável pelo caso, Duilio teve gastos custeados pelo clube em free shops, restaurantes, hotéis, salão de cabeleireiro, loja náutica, site de venda de roupas e outros estabelecimentos sem relação com o dia a dia do Corinthians. As compras totalizaram R$ 41.822,62, em valores corrigidos pela inflação.
Em sua carta, Duilio criticou o ambiente político do Corinthians, disse que o clube se tornou ingovernável e afirmou que sua saída não resolve os problemas estruturais da instituição.
O Ministério Público também denunciou Duilio após a revelação de que João Odair de Souza, conhecido como Caveira e responsável pela segurança do Corinthians entre março de 2018 e dezembro de 2023, recebeu mais de R$ 3,4 milhões do clube em dinheiro vivo.
Com a renúncia, Duilio encerra sua ligação formal com o quadro associativo do Corinthians, mas ainda terá de responder aos processos e investigações fora do ambiente político do clube.
Confira na íntegra a nota de Duilio Monteiro Alves:
“Muitos vão comemorar este que considero meu último gesto como sócio do Corinthians.
Em breve, porém, as pessoas racionais perceberão que não há nada a festejar.
Minha renúncia ao título de sócio remido e ao meu espaço como conselheiro vitalício poderá soar como sonho realizado para muitos. Para alguns, talvez até como música.
Não foram poucos os que apontaram que minha expulsão, assim como a de outros, seria a salvação do Corinthians.
Amanhã, no entanto, o sol nascerá, e todos terão de se fazer uma pergunta: quem será o próximo que deveremos expulsar? Ou vocês acham que acabou?
O Corinthians foi o clube em que me criei. Fui presenteado com o título de sócio remido pelo meu avô, Orlando Monteiro Alves, ainda na maternidade, no dia do meu nascimento e respirei os ares da Democracia Corinthiana graças ao meu pai, Adilson Monteiro Alves. Ganhei Paulistas, Brasileiro, Libertadores, Mundial e Recopa, como diretor e fui o presidente que me comprometi a ser. Dediquei muitos anos à vida política do clube, mas jamais imaginei que o custo pessoal, na saúde mental e na física seriam tão caros, a mim e a minha família. É hora, porém, de buscar alguma paz.
A guerra política do Corinthians deixou muita gente cega. O clube se tornou ingovernável. E, em vez de debater regras, responsabilidades e mecanismos de controle, preferiram criminalizar práticas próprias da vida de uma empresa que fatura R$ 1 bilhão, como renegociação de dívidas e o uso de cartão corporativo, no meu caso, com o valor total utilizado nos 3 anos de gestão com média inferior a R$ 35,00 por dia e com uso estritamente institucional, ou seja, transformaram atos administrativos ordinários em narrativas criminais, sem o devido contexto técnico e contábil.
A verdade é que o Corinthians entrou na era da guerra nuclear. Em vez de unir o clube, algo que tentei fazer, não apenas com palavras, mas de forma efetiva, nomeando inclusive opositores como diretores —, o que se vê hoje é um campo minado político, jurídico, midiático e institucional, do qual não pretendo mais fazer parte.
Por tudo isso, o modelo associativo do Corinthians já não tem mais condições de conduzir um gigante de 35 milhões de torcedores. Multiplicam-se leituras viciadas e casuísticas de um estatuto velho, que fazem de tudo para não deixar que seja modernizado. A ordem agora é expulsar todo e qualquer opositor antes da próxima eleição.
A pergunta que fica, para quem presta atenção, já não é apenas se o Fiel Torcedor terá ou não direito a voto. A pergunta é mais dura: o Corinthians será uma SAF com um dono sem voto ou será um clube controlado por interventores jurídicos, também sem voto?
Com minha saída, talvez muita gente finalmente abra os olhos para os três grandes problemas realmente preocupantes do presente, que tantos fingem não enxergar:
A reforma tributária tornará a vida dos clubes associativos mais cara do que a das SAFs.
A dívida que estava controlada em 2023, com três superávits sucessivos nos anos da minha gestão, foi catapultada em mais R$ 1 bilhão nos anos Augusto/Osmar, com aprovação de gente que agora deseja se candidatar.
E a agência de fair play financeiro implementada pela CBF prevê penas como transfer ban e até rebaixamento para clubes que contratam sem pagar — ainda mais para aqueles que se comportam como se não precisassem pagar.
Minha retirada do quadro associativo não resolve nada disso. Mas ao menos comprova que não tenho vaidade, estou desapegado e disposto a ver o Corinthians discutir, de fato, o seu futuro.
Em 2023, eu saí da presidência do Corinthians pela porta da frente, com todas as contas aprovadas, inclusive no último ano, com o balanço fechado e apresentado por opositores ferrenhos.
Fizeram da minha vida um inferno, e eu caminho por ele, com a certeza de que tudo vai ser esclarecido.
Hoje, tenho dúvidas se os próximos presidentes conseguirão cumprir três anos de mandato. Muito menos com três superávits ano a ano, recorde de faturamento e controle responsável da dívida, como prometi e fiz.
Não me arrependo de nada. E me defenderei na Justiça.
O resto, eu deixo para o tempo.
Portanto, renuncio ao meu título de sócio remido, entrego meu lugar como conselheiro vitalício e membro do CORI e me retiro, de forma definitiva, do quadro de sócios do Parque São Jorge, para que o Corinthians possa, enfim, assim espero, cuidar do presente e do futuro.
Vai Corinthians. Sempre.
Duilio Monteiro Alves, 28 de maio de 2026″